Palácio (da discórdia) Garibaldi

27.9.18


Curitiba é uma cidade grande, uma metrópole regional com quase dois milhões de habitantes que têm todas as facetas comuns a grandes centros urbanos, e uma destas é particularmente bem definida na capital paranaense, o seu centro histórico.

Podemos perceber seu passado arquitetônico num simples transitar pelo conhecido Largo da Ordem, coração deste memorial. A área que já foi de intensa movimentação comercial nos séculos 18 e 19, agora oferece aos visitantes uma viagem no tempo, com construções típicas deste período.

Entre igrejas e outras tantas construções muito bem preservadas, da Fonte da Memória, já é possível avistar uma construção que se destaca pela beleza da sua arquitetura e pela grandeza da sua construção, em perfeita harmonia com a localização. Trata-se do Palácio Garibaldi.

A construção do Palácio foi iniciada em 1887, sendo concluída em 1907 para ser a sede da Sociedade Garibaldi, que havia sido fundada quatro anos antes, com o objetivo de reunir imigrantes italianos em Curitiba.

O local tombado pelo patrimônio cultural paranaense em 1988, foi projetado por Ernesto Guaita, engenheiro e agente consular da Itália. Já a imponente fachada só ficaria pronta em 1932, por obra do arquiteto João de Mio.

Portão principal do Palácio Garibaldi
O Palácio foi local de importantes fatos históricos, tendo sido realizado em 1906, o 1º Congresso Estadual do movimento operário paranaense. Durante a 2ª Guerra Mundial, mais precisamente em 1943, o local foi desapropriado pelo governo tornando-se sede do TRE – Tribunal Regional Eleitoral e Palácio da Justiça, sendo devolvido à Sociedade apenas em 1962, sendo sua sede até os dias de hoje.

O luxo e a tradição permeiam seus dias e atualmente o local é utilizado para eventos exclusivos que vão desde casamentos a festas corporativas. Reuniões sociais que buscam justamente fazer valer as citadas características. Isso por si só já deixa claro que frequentar o Palácio Garibaldi não é para todos, infelizmente.

Dentro deste contexto, falaremos de uma situação que marcou o local como exemplo do abismo social existente não somente em Curitiba, mas no país e porque não dizer, no mundo.

A data de 14 de julho de 2017 entrou na história do Palácio Garibaldi, mas não propriamente pela beleza da festa. Isso porque neste caso, tratava-se do casamento da deputada estadual Maria Victória Borghetti Barros e de Diego da Silva Campos. “Mas e daí? ”alguém pode estar se perguntando. Calma!

Maria Victoria é filha de Ricardo Barros, então ministro da saúde do governo de Michel Temer, numa passagem que não deixou saudades no ministério. Além disso, numa das ações que deixaram a moça mais famosa, uma em especial foi através das redes sociais, defendendo o pai quando este pediu o corte de bilhões destinados ao bolsa-família.

A lista de estúpidas “peraltagens” da família burguesa é grande, mas não vou me estender.

Fato é que neste dia a festança aconteceria, como de fato aconteceu. No palco histórico e que ganhou uma estrutura extra, transparente, na frente da sua bela fachada, tudo para atender os mais de mil convidados, nada poderia ser mais alvissareiro.

“Ok, mas não vai afetar em nada a estrutura do tombado patrimônio”. Certíssimo, mas não era isso que estava realmente chamando a atenção.

Passava a ser detalhe o prédio comportar normalmente não mais que trezentas pessoas, o que apenas serviu para garantir os títulos sensacionalistas dos jornais e chamadas jornalísticas da provinciana cidade, gerando uma agitação politicamente correta bem chinfrim. 

O que estavam aos berros sendo expostas eram as vísceras de uma classe burguesa que pode tudo a qualquer tempo e a qualquer preço, sem quimeras regras coletivas de convivência respeitosa. (Huahuahua, eu utópico aparecendo novamente).

Por isso mesmo, não estou aqui a jogar este pequeno relato no meu blog sem que lhes traga um sentido que aliás, já trouxe, precisando somente que o leitor tenha a percepção para tê-lo encontrado. Mas sigamos.

Chegaram a noiva com o pai - enquanto a mãe já estava lá dentro do Palácio Garibaldi (Cida Borghetti, atual governadora do Estado) – numa van completamente agraciada com ovadas e sob escolta policial. Sim, no curto trajeto entre a Igreja do Rosário (também histórica) e o Palácio, o povo foi cobrar tamanha ostentação num tempo onde direitos duramente conquistados, eram retirados.

Durante horas o povo ficou do lado de fora a recepcionar os convidados da festa com uma épica chuva de ovos. (Hoje com o preço dos suplementos proteicos eu lembro daquela cena com mais este pesar.) 

Com o "leve" aroma de ovo podre em toda a atmosfera, a festança com presentes peculiares, como uma garrafa térmica de dois mil e trezentos reais, ocorreu.

Mas não sem uma pequena demonstração de que é visível a insensatez burguesa, por mais que tratem aqueles que vivem do lado de fora de suas bolhas, como invisíveis.

Vista da entrada do Palácio em dia da tradicional feirinha que acontece no Largo da Ordem aos domingos. "A plebe artística fica do lado de fora."

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